Corpo

A Chuva

Ela olha pela janela. Pessoas passando, chuva passando, tempo passando.

Dói-lhe a cabeça. Luta para não se render às aspirinas, tentando descobrir o porquê da dor de cabeça. Às vezes funciona. Quando descobre algo excessivamente inacabado em seus pensamentos, a cabeça já não precisa mais doer para lembrá-la daquilo e então consegue curar a sua própria dor. Pelo menos a da cabeça.

Nesse momento, enquanto mentalmente retoma os últimos acontecimentos, é acometida por uma invasão de lucidez. Relâmpago de consciência. Um raio na cabeça. E, ao olhar na janela, vê um borrão. Não vê a vida passar, mas vê a vida querendo ficar.

Às vezes, é tão ensimesmada que se esquece que as coisas ao seu redor também têm vida.

Às vezes isso também acontecia com o corpo. Doía para lembrar que existia. Porque ter um corpo lhe era angustiante. O corpo é uma prisão, onde se está condenado a passar a vida. Claustrofóbico!

E, da janela, passando pelo túnel da visão, atingindo o olhar, ela sentia as coisas fora de si acontecendo. E refletindo dentro de si. Estava presa dentro de seu corpo. E isso era viver

— Ana Suy Sesarino Kuss

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